Para o Dani
Porque a vida também é feita de lagostas e rock ‘n’ roll.
4 Julho 2008 | Sem comentários
Porque a vida também é feita de lagostas e rock ‘n’ roll.
4 Julho 2008 | Sem comentários
Éramos cerca de quarenta à porta, prontos para assistir ao ensaio geral do espectáculo. O coreógrafo, americano, pouco versado nas dinâmicas do espectador ibérico, vem à porta e dirige-se ao grupo em inglês.
Que nunca tinha tido tanta gente para assistir a um ensaio geral, que nos lembrássemos que não tínhamos pago bilhete, que o que íamos ver era um ensaio, não o objecto acabado, e que a qualquer momento podiam ter que parar e recomeçar de novo ou debater-se com falhas técnicas.
Muito americano.
3 Julho 2008 | Sem comentários
Na ausência de uma língua e história tida por todos como comum, é ao futebol que cabe a tarefa de forjar a identidade nacional espanhola. Ontem, por toda la España, como informavam os repórteres de televisão, se comemorava la vitória de los nuestros. Todos juntos, de norte a sur y de este a oeste.
Aqui em Barcelona, depois do jogo o ambiente era meio estranho. Alguns dos que festejavam, agitando as suas bandeiras espanholas, pareciam literalmente estar a sair do armário. Como se pela primeira vez se estivessem a sentir no seu país. Alguns dos que não festejavam pareciam bastante irritados com os festejos.
Uma leitura dos comentários à notícia do feito no La Vanguardia ilustra bem a amálgama de sentimentos.
30 Junho 2008 | 2 comentários
Há pessoas que lavam as mãos de dez em dez minutos, que arrumam diariamente os livros por uma ordem diferente ou que não descansam enquanto não trabalharem para a ONU.
Eu trabalho com oito casas decimais no AutoCAD. Os meus metros medem 1,00000000.
Já os metros de alguns colegas meus medem 1,0000823 ou 0,99999318. Isto enfada-me muito, porque ainda que eu faça um esforço para me convencer de que afinal de contas são discrepâncias irrisíveis e que em obra o erro é sempre bem maior, nunca consigo. O erro está lá e mais tarde ou mais cedo vai recordar-me de que a promessa de perfeição e mundo melhor que estou a tentar construir nasce já plena de falhas, incapaz sequer de se erguer geometricamente plena do pântano que lhe dá origem.
26 Junho 2008 | 10 comentários
É São João em Barcelona.
Come-se coca (não confundir com o estupefaciente homónimo), vai-se para a rua e rebentam-se petardos como se não houvesse amanhã e as fábricas de pirotecnia tivessem decidido distribuí-los gratuitamente. E isto é um eufemismo.
Os rebentamentos começaram há duas semanas e foram aumentando de intensidade ao longo dos últimos dias. À porta da loja de pirotecnia aqui da rua havia uma fila enorme, ao fim da tarde, que parecia ignorar o cartaz afixado na montra anunciando que a venda era proibida a menores de catorze. Já ao pé do atelier há mais de uma semana que está uma barraquinha montada com o único propósito de vender material pirotécnico.
Hoje está a ser um verdadeiro festival. Ouvem-se explosões de diferentes intensidades, textura e duração, algumas acompanhadas de flash luminoso, com os mais audazes a atirar foguetes. Tudo intercalado com sirenes de ambulâncias.
24 Junho 2008 | 5 comentários
Sempre que não sei dizer uma palavra em castelhano recorro à melhor ferramenta que existe entre falantes de diferentes línguas românicas: dizer a palavra que se sabe com as devidas modificações e o sotaque necessário para que se transforme na possível palavra estrangeira. É uma táctica que dá tantos melhores resultados quanto mais línguas românicas domine o interlocutor.
Com o castelhano a sua utilização torna-se irresistível porque a quantidade de vezes que resulta é surpreendentemente reconfortante. Passei os primeiros dois meses em Barcelona a falar português com sotaque castelhano - abrir as vogais, meter is por todo o lado, sibilar os esses, aspirar os jotas e dizer o resto das consoantes como se tivéssemos a boca cheia de tortilha - e sobrevivi lindamente.
Os problemas surgem quando se passa do vocabulário de sobrevivência para a necessidade de produzir um discurso mais preciso. Há demasiadas palavras em castelhano iguais às portuguesas que têm um sentido ligeira ou completamente diferente, o que faz com que por vezes, de forma inadvertida, se acerte ao lado… ou muito lado… ou insultuosamente ao lado.
Experimentamos uma palavra portuguesa em versão acastelhanizada, o nosso interlocutor faz sinal que percebeu, ficamos cheios de ai-que-bem-que-eu-já-falo e descobrimos mais tarde que afinal estávamos a tentar pedir uma anca (cadera) para nos sentarmos, a prever que o projecto demoraria cerca de um anûs (ano) a construir e a achar de muito bom gosto (exquisito) o processo de distruibuição de bilhas de gás na cidade de Barcelona.
Os falsos amigos são as minas anti-pessoais da semântica. Felizmente descobri, em boa hora, que há trilhos assinalados.
18 Junho 2008 | 4 comentários
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!
Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…
Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!
Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…
Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!
Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…
Movimento Perpétuo Associativo, Deolinda
15 Junho 2008 | 1 comentário
“Mira que esta desnudo!!” E estava mesmo.
Deitado de barriga para o ar num banco de jardim da Carrer de Marina, com as mãos atrás da cabeça a servir de almofada, banhado pelo sol das duas da tarde, o nudista inesperado dormitava calmamente, imune às reacções de espanto dos que passavam.
12 Junho 2008 | Sem comentários
Num universo em que todos fôssemos capazes de articular todos os fonemas conhecidos e literados no Alfabeto Fonético Internacional, era muito mais fácil ensinar as pessoas a pronunciar o meu nome.
Os falantes de mandarim são a mais recente adição ao clube dos que são foneticamente incapazes de dizer Guilherme.
5 Junho 2008 | 2 comentários
Pica-se uma cebola e refoga-se com azeite num tacho que seja bom para fazer arroz.
Lava-se um ramo de espargos frescos (nunca de frasco), tira-se-lhes a parte rija do talo, cortam-se aos bocados e juntam-se à cebola com meio copo de vinho branco.
Enquanto os espargos aprendem o que é um refogado, picam-se quatro dentes de alho para uma frigideira com azeite.
Deixa-se estar o alho a alourar e juntam-se quatro copos de água a ferver aos espargos, tempera-se com sal e, assim que voltar a ferver, juntam-se dois copos de arroz.
Entretanto, como o alho já deve estar, metem-se quatro filetes de robalo (apenas temperados com sal) na frigideira e deixa-se fritar convenientemente dos dois lados.
Servir mal o arroz esteja pronto.
3 Junho 2008 | 7 comentários