Sem título, 2001

Está uma rapa­riga sen­tada no banco à minha frente. Tem a cabeça meia pen­dente encos­tada à janela do auto­carro. Está a dormir.

De vez em quando acorda e endireita-se… mas volta a ador­me­cer. A cabeça cai-lhe para trás ou para o lado. Pende len­ta­mente até pro­vo­car dese­qui­lí­brio e, de repente, ela estre­mece e acorda.

Ao lado dela uma senhora de idade está niti­da­mente inco­mo­dada. Percebe-se que a pos­si­bi­li­dade de a outra ador­me­cer para cima de si a ater­ro­riza. Mas não há luga­res vagos.

A rapa­riga ador­me­cente con­ti­nua. Tem o cabelo louro — rabo-de-cavalo preso com um elás­tico cor-de-rosa — veste uma t-shirt sem man­gas preta e umas cal­ças de ganga nor­mais. E óculos escu­ros. Tem a pele seca. Não lhe con­sigo ver o rosto, mas imagino-a bonita, não sei muito bem porquê. Assim, de cos­tas e a ador­me­cer, parece que foi dre­nada de ener­gia. Aban­do­nada, abandona-se. E uma pes­soa que se aban­dona assim deve ser bonita, penso eu.

Mais ou menos em Cam­po­lide acorda. A senhora inco­mo­dada já se sen­tou nou­tro lugar que entre­tanto vagou e olhando na sua direc­ção, para a posi­ção em que o seu corpo se encon­tra, percebe-se que o ter­ror deu lugar à calma — o perigo passou.

A rapa­riga faz um esforço imenso a mexer no saco. Tira a car­teira, tira o di-nheiro que lá tem, conta-o, ador­mece, as moe­das caem-lhe da car­teira para a mão, acorda, res­munga qual­quer coisa e volta a guar­dar o dinheiro. Tira o maço de cigar­ros, serve-se de um cigarro, hesita e fica com ele na mão.

Esta­mos quase a pas­sar no arco e todos os seus ges­tos são vaga­ro­sos e ador­me­ci­dos. Volta a mexer na car­teira e tira um BUC. Só que ador­mece e ele cai-lhe da mão para os meus pés. Acorda nova­mente e res­munga qual­quer coisa pare­cida com “foda-se, cara­lho”. Começa a rodar a cabeça para trás. Num repente, inclino-me, apanho-o e estendo-lho, ime­di­a­ta­mente antes de ter­mi­nar a rota­ção e ficar vol­tada para mim.

Afi­nal não é bonita, mas tam­bém não é feia. Está muito can­sada. É então que a sua face ador­me­cida e aban­do­nada sorri. Olha-me e sorri. A mão tac­teia o bilhete de auto­carro e só à segunda ou ter­ceira o con­se­gue agar­rar. Sem­pre a sor­rir diz-me obri­gado. E eu “de nada”. E ela, sem­pre a olhar-me de trás dos óculos escu­ros, exclama “Já nos vimos hoje!”. Sur­presa. Bal­bu­cio um “Como???” e tam­bém eu já estou a sor­rir, con­fron­tado e meio ner­voso. Ela repete sor­ri­dente “Já nos vimos hoje!”. Não sei que cara estou a fazer mas ela com­pre­ende que qual­quer coisa me escapa e que pre­cisa de ser cla­ri­fi­cada. Pergunta-me “De manhã não foi de 42 para o tra­ba­lho?”. Incré­dulo ainda, respondo-lhe que sim. E ela, sor­rindo, repete, desta vez em tom de con­clu­são, “Então já nos vimos hoje”. Volta-se deva­gar para a frente e na para­gem seguinte já está a dormir.

E eu sor­rio e amo-a durante o resto do percurso.

16 Novembro 2004

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