O problema dos que esperam

“274– O pro­blema dos que espe­ram — São pre­ci­sos mui­tos gol­pes de sorte e mui­tas coi­sas incal­cu­lá­veis para que um homem supe­rior, em quem dorme a solu­ção de um pro­blema, che­gue ainda a tempo para agir — “à explo­são”, como se pode­ria dizer. Em geral, tal não acon­tece, e em todos os recan­tos da terra há os que espe­ram, que mal sabem em que medida espe­ram, mas menos ainda sabem que espe­ram em vão. Por vezes, tam­bém, chega tarde de mais o toque de alvo­rada, aquele acaso que dá a “licença” para agir — acon­tece quando a melhor juven­tude e força de agir estão gas­tas pelo estar-se sen­tado; e quan­tos não des­co­bri­ram com espanto, ao levantarem-se “sobres­sal­ta­dos”, que tinham os mem­bros dor­men­tes e o espí­rito estava pesado de mais! “É tarde de mais”, disse, tor­nado des­crente de si pró­prio e, agora, inú­til para sempre. — Será que, no reino do génio, o “Rafael sem mãos”, enten­dida a pala­vra no sen­tido mais lato, não é tal­vez a excep­ção, mas a regra? — O génio tal­vez não seja tão raro: mas são-no as qui­nhen­tas mãos que ele neces­sita para tira­ni­zar o “XXXXX”(grego), “o tempo oportuno” — para agar­rar o acaso pelos cabelos!”

Fri­e­drich Nietzs­che, Para Além do Bem e do Mal

2 Dezembro 2004

Vagamente relacionados
O lado errado
Oito casas decimais
Vive la fête!
Desnudo
Friques

» Deixe um comentário