500 e poucas polaroids antes…

(…) Interessa-me explo­rar algu­mas coi­sas com esta ideia.

Em pri­meiro lugar, o momento da esco­lha. Como só posso tirar uma foto por dia, o momento em que decido regis­tar só pode acon­te­cer uma vez — ape­nas uma coisa para foto­gra­far ao longo do dia. Isto sig­ni­fica que se tiro uma ao acor­dar posso dei­xar a máquina em casa e que, da mesma forma, corro o risco de che­gar ao fim do dia sem ter feito esco­lha nenhuma. Esta esco­lha vai ser mais moti­vada por um impulso, ima­gino, do que pro­pri­a­mente por deleite esté­tico. Faz parte das regras que não posso alte­rar o meu dia-a-dia por causa das pola­roids, ou seja, ir a um sítio tirar uma foto­gra­fia não vale.

Em segundo lugar, a ins­tan­ta­nei­dade do suporte e a pos­si­bi­li­dade de con­fron­tar a coisa com o registo da coisa. Diverte-me a pers­pec­tiva de olhar para uma laranja e ter na mão a foto­gra­fia da mesma laranja.

Por fim estou muito curi­oso em obser­var o con­junto de foto­gra­fias a cres­cer. Tal­vez este registo quo­ti­di­ano possa cons­ti­tuir, pas­sado algum tempo, um uni­verso per si, com qua­li­da­des pró­prias. Ou tal­vez possa ser um álbum ranhoso de ima­gens des­fo­ca­das e desin­te­res­san­tes. Não sei o que esperar.

Depois quero mar­car em cada foto­gra­fia a data. Para isso estou a pen­sar com­prar um carimbo data­dor. Em ter­mos de pro­cesso o carimbo ajuda a uni­for­mi­zar o registo, mas o que me fas­cina é o carác­ter de fecho… Não é bem isto… Expli­cando melhor, o acto de carim­bar encerra um assunto, tem esse carác­ter de fechar qual­quer coisa, de tér­mino, e isto parece-me o ideal como remate do processo.

Há um pri­meiro momento de iden­ti­fi­ca­ção da situ­a­ção, hesito, depois agarro na máquina, hesito outro vez, aponto, hesito e ainda posso desis­tir, dis­paro e já não desisto, espero que ela revele, tiro o carimbo, ajusto a data, passo-o na almo­fada e imprimo a data na foto­gra­fia. E é por isto, pen­sando nesta sequên­cia que o carimbo me parece fazer mais sen­tido do que escre­ver com uma caneta, por exemplo. (…)

2 Dezembro 2004

Vagamente relacionados
Enfadwitter
A festa
Medições
Um homem armado
Burocracias

« 1 comentário

  • Exposição Lisbon Studio » ENFADO27.05.10 | 12:59

    […] foto­gra­fia, banda dese­nhada, ani­ma­ção e vídeo. Meus, vão estar uma selec­ção de pola­roids e dois vídeos à volta da cidade de […]

» Deixe um comentário