Que bom que é

Vivo c’uma faca espe­tada nas cos­tas, ai!
que bom que é
que bom que é
que bom que é
Sen­tado à espera de D. Sebas­tião
a cadeira nem é minha, é do papão
que bom que ele é
que bom que ele é
 – Um, dois, um-dois-três, paci­ên­cia, fica pr’outra vez

Vivo com a fome enta­lada na gar­ganta
que bom que é
que bom que é
que bom que é
Sen­tado à espera que o céu me dê pão
a cadeira, emprestou-ma o sacris­tão
que bom que ele é
que bom que ele é
 – Um, dois, um-dois-três, paci­ên­cia, fica pr’outra vez

Vivo com a guerra a bater à minha porta
que bom que é
que bom que é
que bom que é
Sen­tado à espera do obus dum canhão
a cadeira, emprestou-ma o capi­tão
que bom que ele é
que bom que ele é
 – Um, dois, um-dois-três, paci­ên­cia, fica pr’outra vez

Vivo a tra­ba­lhar nove dias por semana
que bom que é
que bom que é
que bom que é
Sen­tado à espera da revo­lu­ção
a cadeira, emprestou-ma o meu patrão
que bom que ele é
que bom que ele é
 – Um, dois, um-dois-três de Oli­veira, quatro

Vivo c’uma faca enter­rada nas cos­tas, ai!
que bom que é
que bom que é
que bom que é
Sen­tado à espera de D. Sebas­tião
a cadeira nem é minha, é do papão
que bom que ele é
que bom que ele é
 – Um, dois, um-dois-três, esta agora vai de, um, dois, um-dois-três, esta agora vai de vez, ai!

Sér­gio Godi­nho, “Os Sobre­vi­ven­tes”, 1971

25 Abril 2005

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