Enfaduncho

A insis­tên­cia em dizer aos falan­tes de inglês de que este país se chama Timor-Leste e não East Timor provoca-me grande enfado.

Supo­nha­mos o seguinte:

1. Um país tem um nome ofi­cial que é desig­nado pela sua cons­ti­tui­ção ou docu­mento afim; ima­gi­ne­mos que se chama Bun­des­re­pu­blik Deuts­ch­land ou, para sim­pli­fi­car, Deuts­ch­land.

2. Um país dife­rente, chamemos-lhe Por­tu­gal, esta­be­lece rela­ções soci­ais, comer­ci­ais e diplo­má­ti­cas com o pri­meiro e, por pre­guiça foné­tica ou inca­pa­ci­dade gra­ma­ti­cal, tra­duz o nome do pri­meiro para algo que lhe seja mais con­ve­ni­ente e que não obri­gue à alte­ra­ção do seu padrão orto­grá­fico por causa de meia-dúzia de tra­ta­dos: Repú­blica Fede­ral Alemã ou Ale­ma­nha, na ver­são curta.

3. As rela­ções desenvolvem-se, os cida­dãos do segundo país via­jam e emi­gram para o pri­meiro e tra­du­zem tam­bém os nomes de cida­des: Frank­furt para Fran­co­forte, Stutt­gart para Estu­garda ou Mün­chen para Munique.

4. Este pro­cesso que ocorre nos dois sen­ti­dos é mutu­a­mente enri­que­ce­dor e difi­cil­mente põe em causa as rela­ções diplo­má­ti­cas esta­be­le­ci­das, con­tri­buindo para apro­fun­dar as rela­ções entre os dois povos.

East Timor é uma tra­du­ção para inglês do nome que este país esco­lheu para si pró­prio e que qual­quer falante da lín­gua inglesa tem o direito de uti­li­zar. Quando o faz expressa exac­ta­mente o mesmo que um por­tu­guês que diga Costa do Mar­fim em vez Côte d’Ivoire: abso­lu­ta­mente nada.

O facto de Timor-Leste ser o nome pelo qual o país foi aceite nas Nações Uni­das tam­bém não é jus­ti­fi­ca­ção, por­que a forma como a orga­ni­za­ção designa os seus paí­ses mem­bros é con­tra­di­tó­ria. Se olhar­mos para as ver­sões inglesa e fran­cesa da lista de paí­ses mem­bros publi­cada no seu sítio na inter­net cons­ta­ta­mos que enquanto Timor-Leste merece as hon­ras de ser refe­rido pelo seu nome cons­ti­tu­ci­o­nal, a Ale­ma­nha é com­ple­ta­mente achin­ca­lhada, sendo desig­nada, res­pec­ti­va­mente por Ger­many e Alle­magne.

A ideia de que dizer East Timor em vez de Timor-Leste implica ade­rir a deter­mi­nada con­cep­ção do mundo con­trá­ria à sobe­ra­nia deste pequeno país, entende-se, mas não se jus­ti­fica. E uma ideia que não se jus­ti­fica é menos do que nada.

13 Junho 2006

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« 3 comentários

  • dan14.06.06 | 19:13

    Mai´nada!!

  • h'au21.06.06 | 15:46

    A ques­tao, parece-me, é quando um país é cons­tan­te­mente ame­a­çado na sua sobe­ra­nia e auto­no­mia (o que nao é o caso da Ale­ma­nha desde longa data). Nes­sas con­di­çoes, qual­quer mani­fes­ta­çao pró-autonomia me parece jus­ti­fi­ca­vel (embora nao ache que sig­ni­fi­que nada em rela­cao a con­cep­coes do mundo…). Jus­ti­fi­ca­vel para nós, para os “ocu­pan­tes” e para os timo­ren­ses. Se bem que a maior parte des­tes últi­mos con­cor­da­rao con­tigo, quase de cer­teza… Eu cá vou con­ti­nuar a dizer Timor-Leste…

  • misha21.06.06 | 17:17

    muito bem esga­lhado. esqueceste-te de fazer as com­pa­ra­coes entre os nomes para os pai­ses em tetun e na sua lin­gua ori­gi­nal. os holan­de­ses — mesmo os que nao sao da holanda — nao se quei­xam de ter 200 milhoes de gajos — incluindo os de timor — a dizer que eles sao da belandia.

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