Falsos amigos
Sempre que não sei dizer uma palavra em castelhano recorro à melhor ferramenta que existe entre falantes de diferentes línguas românicas: dizer a palavra que se sabe com as devidas modificações e o sotaque necessário para que se transforme na possível palavra estrangeira. É uma táctica que dá tantos melhores resultados quanto mais línguas românicas domine o interlocutor.
Com o castelhano a sua utilização torna-se irresistível porque a quantidade de vezes que resulta é surpreendentemente reconfortante. Passei os primeiros dois meses em Barcelona a falar português com sotaque castelhano - abrir as vogais, meter is por todo o lado, sibilar os esses, aspirar os jotas e dizer o resto das consoantes como se tivéssemos a boca cheia de tortilha - e sobrevivi lindamente.
Os problemas surgem quando se passa do vocabulário de sobrevivência para a necessidade de produzir um discurso mais preciso. Há demasiadas palavras em castelhano iguais às portuguesas que têm um sentido ligeira ou completamente diferente, o que faz com que por vezes, de forma inadvertida, se acerte ao lado… ou muito lado… ou insultuosamente ao lado.
Experimentamos uma palavra portuguesa em versão acastelhanizada, o nosso interlocutor faz sinal que percebeu, ficamos cheios de ai-que-bem-que-eu-já-falo e descobrimos mais tarde que afinal estávamos a tentar pedir uma anca (cadera) para nos sentarmos, a prever que o projecto demoraria cerca de um anûs (ano) a construir e a achar de muito bom gosto (exquisito) o processo de distruibuição de bilhas de gás na cidade de Barcelona.
Os falsos amigos são as minas anti-pessoais da semântica. Felizmente descobri, em boa hora, que há trilhos assinalados.
18 Junho 2008
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Luism — 19.06.08 | 11:57 ≡
Não seria melhor conservar a língua portuguesa e acrescentar um complemento de catalão?
Mas, confesso, de Barcelona e dos catalães só tenho boas recordações a todos os níveis.
Boa sorte e um grande abraço para vocês.
alexandra — 20.06.08 | 12:31 ≡
chile, natal, eu novita e um bocado triste por passar a quadra longe de casa. o escritorio organiza-me uma festa surpresa e pedem discurso. eu comovida e um bocado envergonhada de estar a ser o centro da atenção, de vocabulário limitado em castelhano lá murmuro qualquer coisa tipo “sinto-me tão embaraçada nem sei que dizer”. fez-se silêncio, depois palmas, depois oferecem-me uma cadeira. 3 dias depois uma das administrativas ganha coragem e pergunta-me o que todos queriam saber: quem era o pai?
Ugo — 20.06.08 | 12:41 ≡
Experimenta lá ir a um bar em Itália e pedir para te meterem mais gelo na bebida. Assim do tipo “Piu di GIALLO, per favore” e depois descobres que em vez de GHIACCIO estavas a pedir mais amarelo para o teu copo.
guictx — 21.06.08 | 12:37 ≡
Alexandra: ganhaste o prémio… de longe!