Um homem armado
Pela janela da entrada consigo vê-lo perfeitamente. Está do lado de lá da cerca, numa pequena elevação ao lado do trilho. Traz calções, t-shirt, xanatos, cigarro no canto da boca e uma AK-47 ao ombro agarrada com as duas mãos.
O Lino diz-me que não há perigo, que é uma pessoa do bairro a fazer segurança. Também me diz que é melhor não sair de casa.
Estamos há dois dias sem sair de casa por causa dos tiros e agora temos um homem armado ao lado da cerca. Na minha cabeça de animal encurralado a situação parece-me inaceitável. Não propriamente o facto de estar ali a 20 metros um homem armado; dada a conjuntura era mais ou menos normal que tal acontecesse. O que me incomoda é a ambiguidade daquela presença: não saber se é amigo ou inimigo. E incomoda-me para lá daquilo que estou disposto a suportar.
Olho para o Lino e abro a porta devagarinho. Tiro o maço de tabaco do bolso, agarro-o na mão e saio cá para fora. Também eu de calções, t-shirt, xanatos e cigarro no canto da boca. Começo a andar em direcção à cerca, devagar, mas decidido, como se fosse ligar o gerador ou buscar qualquer coisa ao carro.
Ao terceiro passo ele vira a cabeça para mim e endireita-se. Aqui apercebo-me do que estou a fazer e tenho medo. Mas também estou muito irritado. Demasiado irritado para deixar de andar na sua direcção.
Há três anos que vivo neste país. Timor-Leste é um país pobre em que tudo está por fazer, mas é um país com esperança de crescer, de se desenvolver, onde todos possam ter uma vida digna e honrada. Desde que cá cheguei que é este o meu carburante: a esperança. Uma espécie de radiação colectiva, sentida todos os dias na rua, nos sorrisos das crianças, nas pessoas com quem trabalho e com quem converso. Mas hoje, em finais de Maio de 2006, com o país à beira da guerra civil e a capital semi-evacuada, já não consigo sentir nada. Acho que é isto que me irrita mais que tudo, mais que o homem armado que não sei ao que vem.
Continuo a andar e olho para ele. Fiquei mais confiante quando há pouco, ao aperceber-se da minha presença, não me apontou a arma. Estou a meio do caminho. De rosto fechado e mãos na espingarda ele parece indeciso. Está na altura.
Sorrio, aceno com a mão e digo-lhe “Boa tarde!”. O rosto fechado abre-se num sorriso. A mão direita larga a arma, tira o cigarro da boca e ele responde “Bô tardi!”. Agora já somos dois a aproximar-nos da cerca. Pergunto-lhe se é do bairro. Diz-me que sim, que mora para os lados da ribeira. Se está a fazer segurança. Que sim, que com mais uns homens estão a defender o bairro, que tem muito malandro por aí.
Estamos agora os dois parados junto à cerca. Ofereço-lhe um cigarro que ele guarda atrás da orelha. Ficamos ali um momento a fumar.
Na minha cabeça penso em compor rapidamente um apelo à paz e à deposição das armas. Que estupidez agora dar sermões ao homem. Talvez perguntar-lhe se sabe usar a espingarda e se os malandros que andam para aí também vêm armados. Não sai nada. Não é assim tão fácil meter conversa com um civil armado. Pergunto-lhe finalmente se precisa de alguma coisa e se vai ficar ali muito tempo. Diz-me que não, que está a fazer a ronda nesta zona e que tem de se juntar aos outros.
Nesse caso, boa tarde e bom trabalho, digo-lhe eu com um aceno. Ele despede-se também e vamos cada um à sua vida.
E foi só depois de lhe virar as costas, enquanto caminhava lentamente na direcção da porta, pensando na parvoíce que é desejar um bom trabalho a um homem armado, com o Lino no alpendre à minha espera, satisfeito por ter resolvido a ambiguidade daquela presença, que as pernas me começaram a tremer como se fossem feitas de gelatina.
9 Junho 2009
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