O logradouro

O filme começa com uma janela. Durante os pri­mei­ros minu­tos vemos várias jane­las em momen­tos dife­ren­tes do dia e da noite. Durante os mes­mos pri­mei­ros minu­tos os pla­nos sobre as jane­las, tomado sem­pre a par­tir do mesmo ponto, vão se afas­tando para reve­lar que esta­mos num logra­douro, a obser­var as jane­las dos pré­dios que o compõem.

Iden­ti­fi­cado o logra­douro, come­ça­mos a ver pes­soas den­tro das suas casas a viver a sua vida. Observamo-las atra­vés das jane­las, em fun­ção daquilo que os dis­po­si­ti­vos de con­trolo de pri­va­ci­dade per­mi­tem — per­si­a­nas, cor­ti­nas, vidro fosco — ou nos momen­tos em que acei­tam expor-se — vir à varanda, estar à janela, abrir as cor­ti­nas. As pes­soas tam­bém ocu­pam alguns dos espa­ços do logra­douro e isso mesmo vamos tam­bém obser­vando em pla­nos inter­ca­la­dos com os das janelas.

A pouco e pouco o uni­verso de pes­soas e espa­ços obser­va­dos vai-se limi­tando e, por fim, esta­mos a acom­pa­nhar ape­nas três ou qua­tro espa­ços — pes­soas. Por esta altura somos todos voyeurs e o rea­li­za­dor um pro­vá­vel soci­o­pata. Dá-se então o salto.

Saí­mos do logra­douro e esta­mos na rua. Toca­mos a cam­paí­nhas, entra­mos em pré­dios, subi­mos esca­das e alguém nos abre a porta. Entra­mos. Per­ce­be­mos que esta­mos em casa das pes­soas que obser­vá­va­mos atra­vés das jane­las ou dos pátios.

Fala­mos com elas. Contam-nos a sua his­tó­ria: a que as levou a este logra­douro. Falam-nos tam­bém sobre as cor­ti­nas e as per­si­a­nas e as jane­las e as varan­das e os pátios. Contam-nos que se sen­tem obser­va­das na mar­quise e que por isso cor­rem sem­pre as per­si­a­nas; que gos­tam de ver os vizi­nhos e que por isso não têm cor­ti­nas; que gos­tam de fumar à janela a ver os gatos lá em baixo. Falam-nos de ver­go­nha, de pri­va­ci­dade, de inti­mi­dade, de exi­bi­ção, mas tam­bém de roupa a secar, de molas caí­das, de gatos per­di­dos, de peri­qui­tos estridentes.

No fim vemos o logra­douro, desta vez tomado de um con­junto de pon­tos dife­ren­tes, pela pri­meira vez con­fi­gu­rado como um todo.

17 Novembro 2009

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« 2 comentários

  • ordep17.11.09 | 13:48

    O outro casal já chegou?

  • guictx17.11.09 | 14:28

    Já. Tinham ido de fim-de-semana.

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