O incêndio

Tenho os sapa­tos cal­ça­dos e seguro com as mãos uma man­gueira de rega por onde baba um fio de água. À minha volta o capim seco con­ti­nua a arder como se nada fosse. O depó­sito de água está nas últi­mas e não há água. Não sei quanto tempo vão demo­rar os bom­bei­ros a chegar.

Tudo come­çou com dois miú­dos que no ter­reno ao lado brin­ca­vam com fós­fo­ros. Um deles acen­deu a caixa toda sem que­rer, largou-a com o susto e acen­deu o capim. Antes que alguém pudesse rea­gir já o fogo estava na cerca de palapa da nossa casa. Foi aí que me telefonaram.

Quando che­guei já tinha ardido a cerca toda do lado poente, enquanto o Sr. Manuel, ten­tando evi­tar a pro­pa­ga­ção à casa pelo capim, ati­rava água de longe. Os chi­ne­los que tra­zia cal­ça­dos não o dei­xa­vam aproximar-se sem quei­mar os pés. Peguei na man­gueira e fui eu para o meio de fogo ten­tar contê-lo. Um grupo de vizi­nhos, entre os quais a famí­lia dos auto­res mate­ri­ais do sinis­tro, tra­ziam bal­des e algui­da­res para ajudar.

A man­gueira não faz grande coisa, mas em con­junto com os bal­des de água, con­se­gui­mos con­ter as cha­mas até che­ga­rem os bom­bei­ros e darem cabo do incên­dio. A ope­ra­ção foi um sucesso.

Quando no fim de tudo, já com os bom­bei­ros a cami­nho do quar­tel e os vizi­nhos regres­sa­dos às suas casas, me sen­tei a des­can­sar, a con­tem­plar a cerca quei­mada e a cinza fume­gante, per­cebi com a força de uma epi­fa­nia que o meu tempo em Timor-Leste tinha che­gado ao fim.

30 Novembro 2011

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