A pé pela cidade, recebo, com agrado, os cumprimentos e acenos dos automobilistas que avançam à minha frente na passadeira, impedindo a minha pedestre progressão. É de louvar que na iminência do atropelo tenham o sangue frio e a simpatia de me dizer olá.
Por ocasião do seu aniversário, um vídeo filmado em Super 8 no distrito de Oecussi, Timor-Leste, em finais de Abril de 2006, com alguns trechos captados pelo próprio aniversariante.
NOTA: Contém imagens eventualmente chocantes para pessoas sensíveis a enxurradas.
O filme começa com uma janela. Durante os primeiros minutos vemos várias janelas em momentos diferentes do dia e da noite. Durante os mesmos primeiros minutos os planos sobre as janelas, tomado sempre a partir do mesmo ponto, vão se afastando para revelar que estamos num logradouro, a observar as janelas dos prédios que o compõem.
Identificado o logradouro, começamos a ver pessoas dentro das suas casas a viver a sua vida. Observamo-las através das janelas, em função daquilo que os dispositivos de controlo de privacidade permitem — persianas, cortinas, vidro fosco — ou nos momentos em que aceitam expor-se — vir à varanda, estar à janela, abrir as cortinas. As pessoas também ocupam alguns dos espaços do logradouro e isso mesmo vamos também observando em planos intercalados com os das janelas.
A pouco e pouco o universo de pessoas e espaços observados vai-se limitando e, por fim, estamos a acompanhar apenas três ou quatro espaços — pessoas. Por esta altura somos todos voyeurs e o realizador um provável sociopata. Dá-se então o salto.
Saímos do logradouro e estamos na rua. Tocamos a campaínhas, entramos em prédios, subimos escadas e alguém nos abre a porta. Entramos. Percebemos que estamos em casa das pessoas que observávamos através das janelas ou dos pátios.
Falamos com elas. Contam-nos a sua história: a que as levou a este logradouro. Falam-nos também sobre as cortinas e as persianas e as janelas e as varandas e os pátios. Contam-nos que se sentem observadas na marquise e que por isso correm sempre as persianas; que gostam de ver os vizinhos e que por isso não têm cortinas; que gostam de fumar à janela a ver os gatos lá em baixo. Falam-nos de vergonha, de privacidade, de intimidade, de exibição, mas também de roupa a secar, de molas caídas, de gatos perdidos, de periquitos estridentes.
No fim vemos o logradouro, desta vez tomado de um conjunto de pontos diferentes, pela primeira vez configurado como um todo.
Construída entre 1921 e 1940 em Copenhaga, com projecto do arquitecto dinamarquês Peder Vilhelm Jensen-Klint, a Igreja de Grundtvig é uma das mais bonitas que já visitei. Toda em alvenaria de tijolo maciço é de uma simplicidade e austeridade só possíveis quando se é luterano e faz frio.
“A lifestream is a time-ordered stream of documents that functions as a diary of your electronic life.” *
Tenho andado há que tempos a pensar que devia reunir de alguma forma as várias coisas que vou publicando no blogue, no flickr, no vimeo ou no twitter. Por isso decidi agarrar nos feeds de cada um destes sítios, remisturei-os e criei o meu próprio lifestream.
O resultado é um feed RSS que agrega todos as supracitadas fontes e as republica por ordem cronológica. Se me quiserem ajudar a avaliar o funcionamento e a relevância da empreitada, podem subscrevê-lo clicando aqui ou a partir do meu sítio pessoal (se tiverem um browser com auto-detecção de feeds, claro).
Obrigado.
* FREEMAN, E.; GELERNTER, D. — Lifestreams: a storage model for personal data. SIGMOD Rec., 25:1 (1996) 80 – 86.
Esta entrada do Tiago no Cinco Dias, faz-me pensar na falta que faz a Portugal um site tipo FactCheck.org, que se dedique única e exclusivamente a construir a narrativa das oscilações de opinião e a desmontar a retórica dos políticos portugueses através das suas declarações à comunicação social.
The empty hand of innocence transfusing street of the sorrows and children of the wood Hounded, shredding all veils and winding all sheets of the dead world droning Overturning tables laden with silver sacrificial birds Beating goat-skin drums Advancing with hands out-stretched and we keep filling them with mercury nitrate, asbestos Baby bombs blasting blue Scavengers picking through the ashes Children of the mills! Children of the junkyards! Sleepy, illiterate, fuzzy little rats haunted, paint-sniffin’, stoned out of their shaved heads Forgotten, foraging, mystical children Foul-mouthed, glassy eyed, hallucinating
Quando eu e a minha melhor metade fomos para Barcelona, pensámos que, por ser uma cidade grande e por questões de comodidade, teríamos que levar o carro para lá. Nunca foi preciso. Andámos sempre a pé, de bicicleta e de transportes públicos.
Um ano e meio depois desta vida urbana sem carro estávamos convertidos e, chegados a Lisboa, procurámos uma casa que nos permitisse continuar o mesmo estilo de vida — só faltam as bicicletas. Continuamos a ter carro, mas andamos muito pouco com ele e é frequente termos que fazer um esforço para nos lembrarmos onde ficou estacionado. Eu vou a pé para o meu local de trabalho, fazemos compras no comércio do bairro e para ir mais longe usamos transportes públicos.
É uma sensação contraditória mas eu sinto que, sem carro, tenho mais mobilidade urbana. E definitivamente sinto-me mais humano.