Av. Elias Garcia

Uma mulher var­re­dora de ruas. É nova, tal­vez da minha idade. É muito bonita. Achei estra­nho que uma mulher assim var­resse ruas, mas depressa se tor­nou evi­dente a cre­ti­nice encer­rada neste pen­sa­mento. A seguir pen­sei que se me cru­zasse com ela na rua num domingo, o mais pro­vá­vel era não repa­rar. E con­cluí que, pro­va­vel­mente, embora muito bonita, o facto de var­rer ruas lhe con­fere uma beleza única e especial.

22 Novembro 2004 | Sem comentários

Paragem de autocarro (II)

Tabuleta de paragem de autocarro da Câmara Municipal de Díli

Antes de 1975 era aqui que para­vam os trans­por­tes públi­cos da Câmara Muni­ci­pal de Díli.

19 Novembro 2004 | Sem comentários

Do lado de fora da vida

Às vezes assalta-me o estra­nho pen­sa­mento de que o que fica de fora da minha vida é muito mais impor­tante do que o que está lá den­tro. Não no sen­tido de achar que tenho uma vida vazia ou que estou a viver em dife­rido. O sen­tido é outro. É como se todas as pala­vras que não digo ou as deci­sões que não tomo fos­sem muito mais impor­tan­tes do que as ditas ou toma­das. Como se a vida se enri­que­cesse e qua­li­fi­casse não pelo que acon­tece, mas pelo que nunca aconteceu.

18 Novembro 2004 | 1 comentário

O adeus

Foi há dois meses e meio e para mim é esse que conta. Por­que esse é que foi um adeus como deve ser: sen­tido, apai­xo­nado e terno. O de hoje foi o nor­mal acu­mu­lar de mal-entendidos, coi­sas por dizer e pala­vras mal ama­nha­das com que o ser humano cons­trói dia­ri­a­mente a sua bana­li­dade inte­rior. Por isso, se não te impor­tas, ficas tu com o de hoje e eu fico com o outro.

16 Novembro 2004 | Sem comentários

Sem título, 2001

Está uma rapa­riga sen­tada no banco à minha frente. Tem a cabeça meia pen­dente encos­tada à janela do auto­carro. Está a dormir.

De vez em quando acorda e endireita-se… mas volta a ador­me­cer. A cabeça cai-lhe para trás ou para o lado. Pende len­ta­mente até pro­vo­car dese­qui­lí­brio e, de repente, ela estre­mece e acorda.

Ao lado dela uma senhora de idade está niti­da­mente inco­mo­dada. Percebe-se que a pos­si­bi­li­dade de a outra ador­me­cer para cima de si a ater­ro­riza. Mas não há luga­res vagos.

A rapa­riga ador­me­cente con­ti­nua. Tem o cabelo louro — rabo-de-cavalo preso com um elás­tico cor-de-rosa — veste uma t-shirt sem man­gas preta e umas cal­ças de ganga nor­mais. E óculos escu­ros. Tem a pele seca. Não lhe con­sigo ver o rosto, mas imagino-a bonita, não sei muito bem porquê. Assim, de cos­tas e a ador­me­cer, parece que foi dre­nada de ener­gia. Aban­do­nada, abandona-se. E uma pes­soa que se aban­dona assim deve ser bonita, penso eu.

Mais ou menos em Cam­po­lide acorda. A senhora inco­mo­dada já se sen­tou nou­tro lugar que entre­tanto vagou e olhando na sua direc­ção, para a posi­ção em que o seu corpo se encon­tra, percebe-se que o ter­ror deu lugar à calma — o perigo passou.

A rapa­riga faz um esforço imenso a mexer no saco. Tira a car­teira, tira o di-nheiro que lá tem, conta-o, ador­mece, as moe­das caem-lhe da car­teira para a mão, acorda, res­munga qual­quer coisa e volta a guar­dar o dinheiro. Tira o maço de cigar­ros, serve-se de um cigarro, hesita e fica com ele na mão.

Esta­mos quase a pas­sar no arco e todos os seus ges­tos são vaga­ro­sos e ador­me­ci­dos. Volta a mexer na car­teira e tira um BUC. Só que ador­mece e ele cai-lhe da mão para os meus pés. Acorda nova­mente e res­munga qual­quer coisa pare­cida com “foda-se, cara­lho”. Começa a rodar a cabeça para trás. Num repente, inclino-me, apanho-o e estendo-lho, ime­di­a­ta­mente antes de ter­mi­nar a rota­ção e ficar vol­tada para mim.

Afi­nal não é bonita, mas tam­bém não é feia. Está muito can­sada. É então que a sua face ador­me­cida e aban­do­nada sorri. Olha-me e sorri. A mão tac­teia o bilhete de auto­carro e só à segunda ou ter­ceira o con­se­gue agar­rar. Sem­pre a sor­rir diz-me obri­gado. E eu “de nada”. E ela, sem­pre a olhar-me de trás dos óculos escu­ros, exclama “Já nos vimos hoje!”. Sur­presa. Bal­bu­cio um “Como???” e tam­bém eu já estou a sor­rir, con­fron­tado e meio ner­voso. Ela repete sor­ri­dente “Já nos vimos hoje!”. Não sei que cara estou a fazer mas ela com­pre­ende que qual­quer coisa me escapa e que pre­cisa de ser cla­ri­fi­cada. Pergunta-me “De manhã não foi de 42 para o tra­ba­lho?”. Incré­dulo ainda, respondo-lhe que sim. E ela, sor­rindo, repete, desta vez em tom de con­clu­são, “Então já nos vimos hoje”. Volta-se deva­gar para a frente e na para­gem seguinte já está a dormir.

E eu sor­rio e amo-a durante o resto do percurso.

16 Novembro 2004 | Sem comentários

Paragem de autocarro

Homem e mulher abraçam-se e beijam-se len­ta­mente na para­gem de auto­carro. Às vezes param, olham-se demo­ra­da­mente nos olhos e logo reco­me­çam. Estão ali há muito tempo. Não tro­cam pala­vras, não olham à volta, nem apa­nham o autocarro.

15 Novembro 2004 | Sem comentários

Mais agitação tectónica

Sismograma do primeiro sismo

O USGS cor­ri­giu a mag­ni­tude para o pri­meiro sismo de ontem. O novo valor — 7,5 — transforma-o no maior sismo do ano no mundo. Durante todo o dia de ontem tive­mos répli­cas de inten­si­da­des vari­a­das, com espe­cial des­ta­que para esta, esta e mais esta. Não houve gran­des estra­gos, mas um dia inteiro a sen­tir a terra a tre­mer pro­voca uma des­con­cer­tante sen­sa­ção de desequilíbrio.

Fonte da ima­gem: Geos­ci­ence Aus­tra­lia, sis­mo­grama do pri­meiro sismo.

13 Novembro 2004 | Sem comentários

Agitação tectónica

Pri­meiro foi este. Eram 6:30 da manhã, fez-me acor­dar sobres­sal­tado e durou cerca de 30 segun­dos. Depois foi este. Eram 7:50 e durou menos mas assustou-me mais por­que estava pres­tes a ador­me­cer. Entre os dois, deze­nas de peque­nas répli­cas que duram até agora.

Obser­va­ções registadas:

  1. os galos e os pás­sa­ros que àque­las horas se dedi­cam a fazer uma chin­fri­neira insu­por­tá­vel remeteram-se ao silên­cio durante os dois aba­los mais fortes;
  2. os vizi­nhos gri­ta­ram e come­ça­ram a bater com tachos (disseram-me há bocado que é para se avi­sa­rem uns aos outros e para sina­li­zar que estão bem);
  3. o facto de a terra estar a tre­mer há quase qua­tro horas pro­duz uma sen­sa­ção cons­tante de desequilíbrio;
  4. os pes­ca­do­res leva­ram os bar­cos do porto para o mar alto (pre­sumo que com receio de tsunamis).

Os 7,3 graus de inten­si­dade na escala de Rich­ter do pri­meiro sismo atribuem-lhe o segundo lugar ex-aequo na lista dos mai­o­res do ano.

12 Novembro 2004 | Sem comentários

Acção civilizadora

Timorenses compõem com os seus corpos no chão a palavra salazar

Era assim que se fazia em Timor no fim dos anos 30.

Fonte: CD-ROM “Coló­nia Por­tu­guesa de Timor (Álbum Fontoura)”

10 Novembro 2004 | 2 comentários

Privação

Há muita coisa que faz falta quando se des­loca o quo­ti­di­ano de uma cidade euro­peia para a capi­tal de um dos paí­ses mais pobres do mundo.

O cinema, os con­cer­tos, a boé­mia noc­turna, os qui­os­ques incha­dos de jor­nais e revis­tas, as pas­te­la­rias com ovos moles e pão-de-ló, as livra­rias e lojas de dis­cos… toda a gente tem a sua lista que des­peja pron­ta­mente sem­pre que a con­versa se torna saudosa.

A minha come­çou por ser exten­sís­sima. Dias e dias a enu­me­rar todas as coi­sas que cons­ti­tuiam o meu quo­ti­di­ano e que dei­xa­ram de o fazer. O pátio atrás de minha casa, as noi­tes de Inverno, o Mooch, o cheiro a refo­gado, as expo­si­ções no CAM, o cheiro a mijo de cão no ele­va­dor, andar de metro, demo­rar horas a atra­ves­sar a cidade no 42, sentar-me por baixo da ponte a olhar para o Tejo, pas­sear a pé que nem um estú­pido, comer bifa­nas numa rou­lotte… Não esca­pava nada.

Depois come­cei a rela­ti­vi­zar as coi­sas. “De facto, não haver aqui um cinema é triste, mas lá tam­bém nunca vi um peixe-palhaço no mar”. Há medida que um novo quo­ti­di­ano se foi defi­nindo, a lista foi dimi­nuindo sem eu dar intei­ra­mente por isso. É certo que, por vezes, me con­ti­nuo a sen­tir ampu­tado de tudo aquilo, mas é cada vez menos frequente.

Agora o que não me entra da cabeça, mesmo depois deste tempo todo e de já me terem demons­trado tec­ni­ca­mente por diver­sas oca­siões por­que é que tal acon­tece, é o facto não se arran­jar em lado nenhum um pires de tremoços.

10 Novembro 2004 | Sem comentários