
O USGS corrigiu a magnitude para o primeiro sismo de ontem. O novo valor — 7,5 — transforma-o no maior sismo do ano no mundo. Durante todo o dia de ontem tivemos réplicas de intensidades variadas, com especial destaque para esta, esta e mais esta. Não houve grandes estragos, mas um dia inteiro a sentir a terra a tremer provoca uma desconcertante sensação de desequilíbrio.
Fonte da imagem: Geoscience Australia, sismograma do primeiro sismo.
13 Novembro 2004 | Sem comentários
Primeiro foi este. Eram 6:30 da manhã, fez-me acordar sobressaltado e durou cerca de 30 segundos. Depois foi este. Eram 7:50 e durou menos mas assustou-me mais porque estava prestes a adormecer. Entre os dois, dezenas de pequenas réplicas que duram até agora.
Observações registadas:
- os galos e os pássaros que àquelas horas se dedicam a fazer uma chinfrineira insuportável remeteram-se ao silêncio durante os dois abalos mais fortes;
- os vizinhos gritaram e começaram a bater com tachos (disseram-me há bocado que é para se avisarem uns aos outros e para sinalizar que estão bem);
- o facto de a terra estar a tremer há quase quatro horas produz uma sensação constante de desequilíbrio;
- os pescadores levaram os barcos do porto para o mar alto (presumo que com receio de tsunamis).
Os 7,3 graus de intensidade na escala de Richter do primeiro sismo atribuem-lhe o segundo lugar ex-aequo na lista dos maiores do ano.
12 Novembro 2004 | Sem comentários
Era assim que se fazia em Timor no fim dos anos 30.
Fonte: CD-ROM “Colónia Portuguesa de Timor (Álbum Fontoura)”
10 Novembro 2004 | 2 comentários
Há muita coisa que faz falta quando se desloca o quotidiano de uma cidade europeia para a capital de um dos países mais pobres do mundo.
O cinema, os concertos, a boémia nocturna, os quiosques inchados de jornais e revistas, as pastelarias com ovos moles e pão-de-ló, as livrarias e lojas de discos… toda a gente tem a sua lista que despeja prontamente sempre que a conversa se torna saudosa.
A minha começou por ser extensíssima. Dias e dias a enumerar todas as coisas que constituiam o meu quotidiano e que deixaram de o fazer. O pátio atrás de minha casa, as noites de Inverno, o Mooch, o cheiro a refogado, as exposições no CAM, o cheiro a mijo de cão no elevador, andar de metro, demorar horas a atravessar a cidade no 42, sentar-me por baixo da ponte a olhar para o Tejo, passear a pé que nem um estúpido, comer bifanas numa roulotte… Não escapava nada.
Depois comecei a relativizar as coisas. “De facto, não haver aqui um cinema é triste, mas lá também nunca vi um peixe-palhaço no mar”. Há medida que um novo quotidiano se foi definindo, a lista foi diminuindo sem eu dar inteiramente por isso. É certo que, por vezes, me continuo a sentir amputado de tudo aquilo, mas é cada vez menos frequente.
Agora o que não me entra da cabeça, mesmo depois deste tempo todo e de já me terem demonstrado tecnicamente por diversas ocasiões porque é que tal acontece, é o facto não se arranjar em lado nenhum um pires de tremoços.
10 Novembro 2004 | Sem comentários
É assim que o sol nasce lá em cima.
9 Novembro 2004 | Sem comentários
- Quanto tempo se demora até lá?
– Duas horas de tempo.
8 Novembro 2004 | Sem comentários
É o pico mais alto de Timor-Leste: 2960 metros. Fui lá este fim-de-semana ver o sol nascer sobre os milhares de anos de movimentos tectónicos que lentamente encarquilharem esta ilha.
A facilidade com que decidimos subir pelo lado errado, as pernas a tremer de caminhar num trilho ao lado de uma escarpa de dezenas de metros, os macacos lá em baixo, a muita sede sempre que parava, o cansaço, o ainda mais cansaço, a força que não se sabe de onde veio, a sombra refrescante de uma árvore, o gole de água que sabe por um litro, o coração a bater nas unhas dos pés, o Albino sempre descalço a rir-se cada vez que alguém escorregava, o vento muito vento, o olhar para trás e não acreditar que se passou ali, o contar a distância em altura em vez de comprimento, a tenda montada no sítio mais estúpido de todos, a garrafa de whisky que se bebeu para matar o frio, a noite mal dormida a 2850 metros, o acordar mal-disposto, a violência da última subida ainda antes de comer…
Tudo isto e mais o que não consigo aqui meter como construção desse momento em que chego ao cume e olho à volta, com os olhos a transbordar de paisagem e a montanha a doer-me nas pernas.
8 Novembro 2004 | Sem comentários
Dentro de mim, todos os dias, entre registar o quotidiano de dentro e de fora através da escrita e a preguiça de o fazer. Ganha a inércia sistematicamente. Daí este esforço, talvez inglório, talvez vitorioso, decidamente ridículo, de pensar que o carácter público de uns apontamentos podem inverter a situação. A ver vamos.
5 Novembro 2004 | 3 comentários