
Vou passar o fim-de-semana nesta cabana. Fica no Tua Koin Eco Village em Ataúro que é uma ilha 40 km a Norte de Díli. Como já lá estive sei que vão ser dois dias do mais profundo descanso, passados sobretudo na posição horizontal. Ora deitado no alpendre ali de cima, ora na areia da praia em frente, ora debaixo de água a pregar aos peixes que vivem no recife de coral a 50 metros da praia. Enfim… um verdadeiro enfado.
3 Dezembro 2004 | 1 comentário
(…) Interessa-me explorar algumas coisas com esta ideia.
Em primeiro lugar, o momento da escolha. Como só posso tirar uma foto por dia, o momento em que decido registar só pode acontecer uma vez — apenas uma coisa para fotografar ao longo do dia. Isto significa que se tiro uma ao acordar posso deixar a máquina em casa e que, da mesma forma, corro o risco de chegar ao fim do dia sem ter feito escolha nenhuma. Esta escolha vai ser mais motivada por um impulso, imagino, do que propriamente por deleite estético. Faz parte das regras que não posso alterar o meu dia-a-dia por causa das polaroids, ou seja, ir a um sítio tirar uma fotografia não vale.
Em segundo lugar, a instantaneidade do suporte e a possibilidade de confrontar a coisa com o registo da coisa. Diverte-me a perspectiva de olhar para uma laranja e ter na mão a fotografia da mesma laranja.
Por fim estou muito curioso em observar o conjunto de fotografias a crescer. Talvez este registo quotidiano possa constituir, passado algum tempo, um universo per si, com qualidades próprias. Ou talvez possa ser um álbum ranhoso de imagens desfocadas e desinteressantes. Não sei o que esperar.
Depois quero marcar em cada fotografia a data. Para isso estou a pensar comprar um carimbo datador. Em termos de processo o carimbo ajuda a uniformizar o registo, mas o que me fascina é o carácter de fecho… Não é bem isto… Explicando melhor, o acto de carimbar encerra um assunto, tem esse carácter de fechar qualquer coisa, de término, e isto parece-me o ideal como remate do processo.
Há um primeiro momento de identificação da situação, hesito, depois agarro na máquina, hesito outro vez, aponto, hesito e ainda posso desistir, disparo e já não desisto, espero que ela revele, tiro o carimbo, ajusto a data, passo-o na almofada e imprimo a data na fotografia. E é por isto, pensando nesta sequência que o carimbo me parece fazer mais sentido do que escrever com uma caneta, por exemplo. (…)
2 Dezembro 2004 | 1 comentário
“274– O problema dos que esperam — São precisos muitos golpes de sorte e muitas coisas incalculáveis para que um homem superior, em quem dorme a solução de um problema, chegue ainda a tempo para agir — “à explosão”, como se poderia dizer. Em geral, tal não acontece, e em todos os recantos da terra há os que esperam, que mal sabem em que medida esperam, mas menos ainda sabem que esperam em vão. Por vezes, também, chega tarde de mais o toque de alvorada, aquele acaso que dá a “licença” para agir — acontece quando a melhor juventude e força de agir estão gastas pelo estar-se sentado; e quantos não descobriram com espanto, ao levantarem-se “sobressaltados”, que tinham os membros dormentes e o espírito estava pesado de mais! “É tarde de mais”, disse, tornado descrente de si próprio e, agora, inútil para sempre. — Será que, no reino do génio, o “Rafael sem mãos”, entendida a palavra no sentido mais lato, não é talvez a excepção, mas a regra? — O génio talvez não seja tão raro: mas são-no as quinhentas mãos que ele necessita para tiranizar o “XXXXX”(grego), “o tempo oportuno” — para agarrar o acaso pelos cabelos!”
Friedrich Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal
2 Dezembro 2004 | Sem comentários
Há bocado deu-me uma grande vontade de correr.
E corri.
29 Novembro 2004 | Sem comentários

O que têm em comum Bran Van 3000, Serge Gainsbourg, Death in Vegas, Franz Ferdinand, ABBA, Röyksopp, OMD, Mouse on Mars e Basement Jaxx? Foram algumas das escolhas do DJ Farfalha para a festa de sábado à noite. As mais de 150 pessoas que por lá passaram gostaram sobretudo de ouvir “Tainted Love” dos Soft Cell e, para grande surpresa do DJ, “Wipe That Sound” dos Mouse on Mars.
Estava quase a ser um fiasco. Com início marcado para as onze, tivemos que esperar atè à meia-noite e meia para aparecerem os primeiros convivas. Depois foi sempre a encher. De tal forma que o stock de bebida teve que ser reposto algumas vezes ao longo da noite e o de copos de plástico quase entrou em ruptura.
Eu entretive-me a tirar fotografias com a máquina digital. Num processo semi-automático de disparo aleatório em todas as direcções, tirei 338 fotografias em menos de 2 horas. O resultado impressiona não pela qualidade, muito menos pela quantidade. O inesperado é que em quase todas as fotos está sempre alguém a sorrir ou a rir (o quase é porque as outras são de pessoas a dormir). Isso impressiona. Um grande concentrado de felicidade fugaz.
As festas deviam ser todas assim.
29 Novembro 2004 | 2 comentários

26 Novembro 2004 | Sem comentários
Depois de meses sem cair uma gota de água nesta terra e de dois dias de trovoada seca e nuvens pretas, parece ter começado oficialmente a estação das chuvas que aqui em Díli costuma durar até Maio.
Não há chuva como esta. Aqui a natureza não tem meias medidas ou paninhos quentes.
Vejo as nuvens a aproximarem-se, sempre muito escuras, deixo de ver as montanhas, começo a ouvir os pingos gordos a cair na chapa de zinco. A intensidade aumenta até o barulho da chuva ser o único som audível. As folhas de palmeira em frente à minha janela começam a bater contra o edifício. A trovoada vai passando por cima e distribuindo relâmpagos com fartura. Em quinze minutos o parque de estacionamento ali em baixo fica transformado numa piscina. Isto pode durar vinte minutos ou duas horas. Depois pára, meio de repente. Aparece o sol outra vez e em quinze minutos o parque de estacionamento volta a ficar seco.
Ninguém usa guarda-chuva. São completamente inadequados. E como a chuva é quente, recebê-la no corpo sabe lindamente.
O melhor é ver chover no alcatrão. Está sempre tão quente que os primeiros pingos evaporam mal lhe tocam provocando uma nuvem de vapor que dura os primeiros momentos da chuvada. Uma estrada inteira a evaporar por baixo dos carros e das pessoas.
25 Novembro 2004 | Sem comentários

Fica ali dentro da circunferência a vermelho.
23 Novembro 2004 | 1 comentário
Há dias em que se precisa dele como de pão para a boca.
22 Novembro 2004 | Sem comentários
Uma mulher varredora de ruas. É nova, talvez da minha idade. É muito bonita. Achei estranho que uma mulher assim varresse ruas, mas depressa se tornou evidente a cretinice encerrada neste pensamento. A seguir pensei que se me cruzasse com ela na rua num domingo, o mais provável era não reparar. E concluí que, provavelmente, embora muito bonita, o facto de varrer ruas lhe confere uma beleza única e especial.
22 Novembro 2004 | Sem comentários