Alheamento

Enquanto no Irão se pro­testa nas ruas o resul­tado das elei­ções, numa dimen­são que não se via desde 1999, estes são os des­ta­ques nos sites de infor­ma­ção por­tu­gue­ses, encon­tra­dos hoje às 10:30 da manhã:

Por­tu­gal acima da média da UE em mulhe­res elei­tas (DN).

Um bom­beiro morto e três em estado grave em desas­tre de via­ção em Espa­nha (Público).

Pre­si­dente do Ben­fica adia recan­di­da­tura para depois de con­versa com famí­lia (SIC).

Aces­sos a Lis­boa e Porto com patru­lha­mento refor­çado (RTP).

Até pode ser que nas ver­sões impres­sas e tele­vi­si­o­na­das o des­ta­que dado ao assunto seja outro, mas visto daqui e desta maneira é sinal de um alhe­a­mento preocupante.

ACTUALIZAÇÃO: De acordo o Arras­tão a ten­dên­cia na tele­vi­são confirma-se.

14 Junho 2009 | Sem comentários

Excepción portuguesa

“En una Europa esco­rada a la dere­cha, Por­tu­gal es la excep­ción. En las elec­ci­o­nes euro­peas, los par­ti­dos a la izqui­erda del Par­tido Soci­a­lista (PS) obtu­vi­e­ron el 23% de los sufra­gios. (…)
Llama la aten­ción el ascenso del Bloco de Esquerda (BE), fun­dado en 1999 a par­tir de tres gru­pos de extrema izqui­erda (de ori­gen maoísta y trots­kista). En nueve años, el BE ha mul­ti­pli­cado por siete su cau­dal elec­to­ral, desde el 1,5% al 10,73% del domingo. Hoy es la ter­cera fuerza polí­tica de Por­tu­gal y ha colo­cado a tres dipu­ta­dos en la Eurocámara.”

O que tam­bém chama a aten­ção é o facto do Minis­té­rio da Jus­tiça ser a única enti­dade na Europa que ainda não se con­ven­ceu que o Bloco de Esquerda tem 3 depu­ta­dos, apa­ren­te­mente por causa dos 10 con­su­la­dos que estão por apu­rar há cinco dias.

8 dias depois das elei­ções euro­peias — o tempo que demora à Repú­blica Por­tu­guesa a con­tar os votos dos seus con­su­la­dos no estran­geiro — oficializa-se a elei­ção do ter­ceiro depu­tado do Bloco de Esquerda. Ainda assim con­ti­nua um con­su­lado por apurar.

11 Junho 2009 | Sem comentários

Um homem armado

Pela janela da entrada con­sigo vê-lo per­fei­ta­mente. Está do lado de lá da cerca, numa pequena ele­va­ção ao lado do tri­lho. Traz cal­ções, t-shirt, xana­tos, cigarro no canto da boca e uma AK-47 ao ombro agar­rada com as duas mãos.

O Lino diz-me que não há perigo, que é uma pes­soa do bairro a fazer segu­rança. Tam­bém me diz que é melhor não sair de casa.

Esta­mos há dois dias sem sair de casa por causa dos tiros e agora temos um homem armado ao lado da cerca. Na minha cabeça de ani­mal encur­ra­lado a situ­a­ção parece-me ina­cei­tá­vel. Não pro­pri­a­mente o facto de estar ali a 20 metros um homem armado; dada a con­jun­tura era mais ou menos nor­mal que tal acon­te­cesse. O que me inco­moda é a ambi­gui­dade daquela pre­sença: não saber se é amigo ou ini­migo. E incomoda-me para lá daquilo que estou dis­posto a suportar.

Olho para o Lino e abro a porta deva­ga­ri­nho. Tiro o maço de tabaco do bolso, agarro-o na mão e saio cá para fora. Tam­bém eu de cal­ções, t-shirt, xana­tos e cigarro no canto da boca. Começo a andar em direc­ção à cerca, deva­gar, mas deci­dido, como se fosse ligar o gera­dor ou bus­car qual­quer coisa ao carro.

Ao ter­ceiro passo ele vira a cabeça para mim e endireita-se. Aqui apercebo-me do que estou a fazer e tenho medo. Mas tam­bém estou muito irri­tado. Dema­si­ado irri­tado para dei­xar de andar na sua direcção.

Há três anos que vivo neste país. Timor-Leste é um país pobre em que tudo está por fazer, mas é um país com espe­rança de cres­cer, de se desen­vol­ver, onde todos pos­sam ter uma vida digna e hon­rada. Desde que cá che­guei que é este o meu car­bu­rante: a espe­rança. Uma espé­cie de radi­a­ção colec­tiva, sen­tida todos os dias na rua, nos sor­ri­sos das cri­an­ças, nas pes­soas com quem tra­ba­lho e com quem con­verso. Mas hoje, em finais de Maio de 2006, com o país à beira da guerra civil e a capi­tal semi-evacuada, já não con­sigo sen­tir nada. Acho que é isto que me irrita mais que tudo, mais que o homem armado que não sei ao que vem.

Con­ti­nuo a andar e olho para ele. Fiquei mais con­fi­ante quando há pouco, ao aperceber-se da minha pre­sença, não me apon­tou a arma. Estou a meio do cami­nho. De rosto fechado e mãos na espin­garda ele parece inde­ciso. Está na altura.

Sor­rio, aceno com a mão e digo-lhe “Boa tarde!”. O rosto fechado abre-se num sor­riso. A mão direita larga a arma, tira o cigarro da boca e ele res­ponde “Bô tardi!”. Agora já somos dois a aproximar-nos da cerca. Pergunto-lhe se é do bairro. Diz-me que sim, que mora para os lados da ribeira. Se está a fazer segu­rança. Que sim, que com mais uns homens estão a defen­der o bairro, que tem muito malan­dro por aí.

Esta­mos agora os dois para­dos junto à cerca. Ofereço-lhe um cigarro que ele guarda atrás da ore­lha. Fica­mos ali um momento a fumar.

Na minha cabeça penso em com­por rapi­da­mente um apelo à paz e à depo­si­ção das armas. Que estu­pi­dez agora dar ser­mões ao homem. Tal­vez perguntar-lhe se sabe usar a espin­garda e se os malan­dros que andam para aí tam­bém vêm arma­dos. Não sai nada. Não é assim tão fácil meter con­versa com um civil armado. Pergunto-lhe final­mente se pre­cisa de alguma coisa e se vai ficar ali muito tempo. Diz-me que não, que está a fazer a ronda nesta zona e que tem de se jun­tar aos outros.

Nesse caso, boa tarde e bom tra­ba­lho, digo-lhe eu com um aceno. Ele despede-se tam­bém e vamos cada um à sua vida.

E foi só depois de lhe virar as cos­tas, enquanto cami­nhava len­ta­mente na direc­ção da porta, pen­sando na par­voíce que é dese­jar um bom tra­ba­lho a um homem armado, com o Lino no alpen­dre à minha espera, satis­feito por ter resol­vido a ambi­gui­dade daquela pre­sença, que as per­nas me come­ça­ram a tre­mer como se fos­sem fei­tas de gelatina.

9 Junho 2009 | Sem comentários

Movimento pela igualdade

Sem­pre que alguém me diz que se vai casar, é cos­tume levar com um “Porquê?” antes do “Feli­ci­da­des!”. Como nunca sim­pa­ti­zei muito com a ins­ti­tui­ção casa­mento, sou muito curi­oso em rela­ção às moti­va­ções que levam as pes­soas a casar, sendo que hoje em dia me parece per­fei­ta­mente pos­sí­vel ter uma vida com­pleta a dois sem ade­rir à instituição.

Agora, inde­pen­den­te­mente da minha anti­pa­tia para com o casa­mento, é bom que a soci­e­dade ajude as pes­soas a casar-se, por­que a minha opi­nião sobre o assunto não tem que impe­dir a pro­cura da feli­ci­dade a quem sente que ela passa pelo casamento.

Infe­liz­mente, em Por­tu­gal, isso não acon­tece quando o casal é do mesmo sexo. E isto é grave, por­que não há nenhuma razão lógica que possa expli­car por­que é que o estado retira esse direito à feli­ci­dade quando as duas pes­soas não são de sexos diferentes.

Subs­crevi por isso a peti­ção online do Movi­mento pela Igual­dade e espero que dele possa sur­gir a dinâ­mica neces­sá­ria para repor a jus­tiça no acesso ao casa­mento civil.

4 Junho 2009 | Sem comentários

Edifícios destruídos no cinema

Depois de ver a incrí­vel cena de tiro­teio no Gug­ge­nheim de Nova Ior­que que apa­rece no filme The Inter­na­ti­o­nal, pus-me a pen­sar que outras cenas de fil­mes conheço em que se veja um bom edi­fí­cio a ser des­truído com recurso a armas de fogo.

Só me con­se­gui lem­brar da cena final do Zabris­kie Point, em que o Anto­ni­oni faz explo­dir várias vezes, em câmara lenta e em zoom pro­gres­sivo, uma mora­dia modernista.

Alguém se lem­bra de mais algum edi­fí­cio de renome ou inte­res­sante que tenha sido des­truído para o cinema?

2 Junho 2009 | 4 comentários

Condomínios fechados

I have not and don’t intend to sign up for Face­book.”

Recebi o pri­meiro con­vite para o Face­book há uns três anos e, ao con­trá­rio de outros ser­vi­ços rela­ti­va­mente aber­tos que na altura subs­cre­via, tipo last.fm ou flickr, irritou-me desde logo que para ver e ler os meus ami­gos tivesse que me regis­tar pri­meiro, como se de repente nos tivés­se­mos tor­nado todos mem­bros de um clube pri­vado ou pas­sado a morar num con­do­mí­nio fechado. Não gostei.

Hoje, tal como o John Gru­ber, con­ti­nuo sem conta e sem inten­ções de abrir uma.

31 Maio 2009 | 4 comentários

Enfadwitter

A mesma per­ti­nên­cia nos temas, a mesma qua­li­dade da escrita, a mesma acu­ti­lân­cia na aná­lise; tudo isto ser­vido em 140 carac­te­res de cada vez no twit­ter.

Lá vos espero!

29 Maio 2009 | 2 comentários

Festão

Houve petar­dos com far­tura, cer­ve­jas par­ti­lha­das com des­co­nhe­ci­dos, andar aos pulos na faixa cen­tral da Gran Via, gri­tar “Madrid, cabrón, saluda al cam­péon”, fogo-de-artifício, entrar e sair de bares e uma ale­gria contagiante.

Era impos­sí­vel estar naquele mar de gente e não ser do Barça.

Na Praça da Cata­lu­nha, por volta da meia-noite, era mais ou menos isto que se podia ouvir.

28 Maio 2009 | Sem comentários

Visca el Barça!

Ao con­trá­rio do Daniel, que torce pelo clube onde joga um gajo que foi do clube dele, eu torço pelo clube da cidade onde moro. Pelo que se pas­sou depois da con­quista da Taça do Rei e da Liga Espa­nhola é fácil ima­gi­nar o fes­ta­lhão que nos espera se o Bar­ce­lona ganhar.

27 Maio 2009 | 3 comentários

Aporcalipse

Santo Antão com um leitão aos pés

Afi­nal o paci­ente zero do apor­ca­lipse é o Sant Antoni Abat que dá nome aqui ao bairro.

* Obri­gado pela foto­gra­fia Pedro.

26 Maio 2009 | 1 comentário