Enquanto no Irão se protesta nas ruas o resultado das eleições, numa dimensão que não se via desde 1999, estes são os destaques nos sites de informação portugueses, encontrados hoje às 10:30 da manhã:
Até pode ser que nas versões impressas e televisionadas o destaque dado ao assunto seja outro, mas visto daqui e desta maneira é sinal de um alheamento preocupante.
O que também chama a atenção é o facto do Ministério da Justiça ser a única entidade na Europa que ainda não se convenceu que o Bloco de Esquerda tem 3 deputados, aparentemente por causa dos 10 consulados que estão por apurar há cinco dias.
8 dias depois das eleições europeias — o tempo que demora à República Portuguesa a contar os votos dos seus consulados no estrangeiro — oficializa-se a eleição do terceiro deputado do Bloco de Esquerda. Ainda assim continua um consulado por apurar.
Pela janela da entrada consigo vê-lo perfeitamente. Está do lado de lá da cerca, numa pequena elevação ao lado do trilho. Traz calções, t-shirt, xanatos, cigarro no canto da boca e uma AK-47 ao ombro agarrada com as duas mãos.
O Lino diz-me que não há perigo, que é uma pessoa do bairro a fazer segurança. Também me diz que é melhor não sair de casa.
Estamos há dois dias sem sair de casa por causa dos tiros e agora temos um homem armado ao lado da cerca. Na minha cabeça de animal encurralado a situação parece-me inaceitável. Não propriamente o facto de estar ali a 20 metros um homem armado; dada a conjuntura era mais ou menos normal que tal acontecesse. O que me incomoda é a ambiguidade daquela presença: não saber se é amigo ou inimigo. E incomoda-me para lá daquilo que estou disposto a suportar.
Olho para o Lino e abro a porta devagarinho. Tiro o maço de tabaco do bolso, agarro-o na mão e saio cá para fora. Também eu de calções, t-shirt, xanatos e cigarro no canto da boca. Começo a andar em direcção à cerca, devagar, mas decidido, como se fosse ligar o gerador ou buscar qualquer coisa ao carro.
Ao terceiro passo ele vira a cabeça para mim e endireita-se. Aqui apercebo-me do que estou a fazer e tenho medo. Mas também estou muito irritado. Demasiado irritado para deixar de andar na sua direcção.
Há três anos que vivo neste país. Timor-Leste é um país pobre em que tudo está por fazer, mas é um país com esperança de crescer, de se desenvolver, onde todos possam ter uma vida digna e honrada. Desde que cá cheguei que é este o meu carburante: a esperança. Uma espécie de radiação colectiva, sentida todos os dias na rua, nos sorrisos das crianças, nas pessoas com quem trabalho e com quem converso. Mas hoje, em finais de Maio de 2006, com o país à beira da guerra civil e a capital semi-evacuada, já não consigo sentir nada. Acho que é isto que me irrita mais que tudo, mais que o homem armado que não sei ao que vem.
Continuo a andar e olho para ele. Fiquei mais confiante quando há pouco, ao aperceber-se da minha presença, não me apontou a arma. Estou a meio do caminho. De rosto fechado e mãos na espingarda ele parece indeciso. Está na altura.
Sorrio, aceno com a mão e digo-lhe “Boa tarde!”. O rosto fechado abre-se num sorriso. A mão direita larga a arma, tira o cigarro da boca e ele responde “Bô tardi!”. Agora já somos dois a aproximar-nos da cerca. Pergunto-lhe se é do bairro. Diz-me que sim, que mora para os lados da ribeira. Se está a fazer segurança. Que sim, que com mais uns homens estão a defender o bairro, que tem muito malandro por aí.
Estamos agora os dois parados junto à cerca. Ofereço-lhe um cigarro que ele guarda atrás da orelha. Ficamos ali um momento a fumar.
Na minha cabeça penso em compor rapidamente um apelo à paz e à deposição das armas. Que estupidez agora dar sermões ao homem. Talvez perguntar-lhe se sabe usar a espingarda e se os malandros que andam para aí também vêm armados. Não sai nada. Não é assim tão fácil meter conversa com um civil armado. Pergunto-lhe finalmente se precisa de alguma coisa e se vai ficar ali muito tempo. Diz-me que não, que está a fazer a ronda nesta zona e que tem de se juntar aos outros.
Nesse caso, boa tarde e bom trabalho, digo-lhe eu com um aceno. Ele despede-se também e vamos cada um à sua vida.
E foi só depois de lhe virar as costas, enquanto caminhava lentamente na direcção da porta, pensando na parvoíce que é desejar um bom trabalho a um homem armado, com o Lino no alpendre à minha espera, satisfeito por ter resolvido a ambiguidade daquela presença, que as pernas me começaram a tremer como se fossem feitas de gelatina.
Sempre que alguém me diz que se vai casar, é costume levar com um “Porquê?” antes do “Felicidades!”. Como nunca simpatizei muito com a instituição casamento, sou muito curioso em relação às motivações que levam as pessoas a casar, sendo que hoje em dia me parece perfeitamente possível ter uma vida completa a dois sem aderir à instituição.
Agora, independentemente da minha antipatia para com o casamento, é bom que a sociedade ajude as pessoas a casar-se, porque a minha opinião sobre o assunto não tem que impedir a procura da felicidade a quem sente que ela passa pelo casamento.
Infelizmente, em Portugal, isso não acontece quando o casal é do mesmo sexo. E isto é grave, porque não há nenhuma razão lógica que possa explicar porque é que o estado retira esse direito à felicidade quando as duas pessoas não são de sexos diferentes.
Subscrevi por isso a petição online do Movimento pela Igualdade e espero que dele possa surgir a dinâmica necessária para repor a justiça no acesso ao casamento civil.
Depois de ver a incrível cena de tiroteio no Guggenheim de Nova Iorque que aparece no filme The International, pus-me a pensar que outras cenas de filmes conheço em que se veja um bom edifício a ser destruído com recurso a armas de fogo.
Só me consegui lembrar da cena final do Zabriskie Point, em que o Antonioni faz explodir várias vezes, em câmara lenta e em zoom progressivo, uma moradia modernista.
Alguém se lembra de mais algum edifício de renome ou interessante que tenha sido destruído para o cinema?
Recebi o primeiro convite para o Facebook há uns três anos e, ao contrário de outros serviços relativamente abertos que na altura subscrevia, tipo last.fm ou flickr, irritou-me desde logo que para ver e ler os meus amigos tivesse que me registar primeiro, como se de repente nos tivéssemos tornado todos membros de um clube privado ou passado a morar num condomínio fechado. Não gostei.
Hoje, tal como o John Gruber, continuo sem conta e sem intenções de abrir uma.
Houve petardos com fartura, cervejas partilhadas com desconhecidos, andar aos pulos na faixa central da Gran Via, gritar “Madrid, cabrón, saluda al campéon”, fogo-de-artifício, entrar e sair de bares e uma alegria contagiante.
Era impossível estar naquele mar de gente e não ser do Barça.
Na Praça da Catalunha, por volta da meia-noite, era mais ou menos isto que se podia ouvir.
Ao contrário do Daniel, que torce pelo clube onde joga um gajo que foi do clube dele, eu torço pelo clube da cidade onde moro. Pelo que se passou depois da conquista da Taça do Rei e da Liga Espanhola é fácil imaginar o festalhão que nos espera se o Barcelona ganhar.