Enfaduncho

A insistência em dizer aos falantes de inglês de que este país se chama Timor-Leste e não East Timor provoca-me grande enfado.

Suponhamos o seguinte:

1. Um país tem um nome oficial que é designado pela sua constituição ou documento afim; imaginemos que se chama Bundesrepublik Deutschland ou, para simplificar, Deutschland.

2. Um país diferente, chamemos-lhe Portugal, estabelece relações sociais, comerciais e diplomáticas com o primeiro e, por preguiça fonética ou incapacidade gramatical, traduz o nome do primeiro para algo que lhe seja mais conveniente e que não obrigue à alteração do seu padrão ortográfico por causa de meia-dúzia de tratados: República Federal Alemã ou Alemanha, na versão curta.

3. As relações desenvolvem-se, os cidadãos do segundo país viajam e emigram para o primeiro e traduzem também os nomes de cidades: Frankfurt para Francoforte, Stuttgart para Estugarda ou München para Munique.

4. Este processo que ocorre nos dois sentidos é mutuamente enriquecedor e dificilmente põe em causa as relações diplomáticas estabelecidas, contribuindo para aprofundar as relações entre os dois povos.

East Timor é uma tradução para inglês do nome que este país escolheu para si próprio e que qualquer falante da língua inglesa tem o direito de utilizar. Quando o faz expressa exactamente o mesmo que um português que diga Costa do Marfim em vez Côte d’Ivoire: absolutamente nada.

O facto de Timor-Leste ser o nome pelo qual o país foi aceite nas Nações Unidas também não é justificação, porque a forma como a organização designa os seus países membros é contraditória. Se olharmos para as versões inglesa e francesa da lista de países membros publicada no seu sítio na internet constatamos que enquanto Timor-Leste merece as honras de ser referido pelo seu nome constitucional, a Alemanha é completamente achincalhada, sendo designada, respectivamente por Germany e Allemagne.

A ideia de que dizer East Timor em vez de Timor-Leste implica aderir a determinada concepção do mundo contrária à soberania deste pequeno país, entende-se, mas não se justifica. E uma ideia que não se justifica é menos do que nada.