Expectativas

O número é de circo. O programa promete-nos uma mistura de hula hoop com poste chinês. Começa-se a ouvir um sucedâneo de Kraftwerk e o artista, magro e sorridente, entra em cena. Vai-se mexendo como um robô e fazendo girar os hoops em partes do corpo a que normalmente damos outros usos. Engana-se uma vez, anda de um lado para o outro, finge espanto, faz caretas e o público parece aborrecido. Sobe ao poste chinês, que está estruturado com a ajuda de quatro cordas, e desce, continuando a girar os hoops. Começo-me a sentir entre o tédio e a condescendência.

Até que…

Numa das suas viagens pelo poste acima, com o propósito de soltar um hoop nele preso, as cordas se soltam! E de repente o tipo que parecia um amador em noite não, está em pé em cima de um poste com 7 metros de altura que baloiça perigosamente de um lado para o outro, como se se fosse dobrar e partir, e faz girar, ao mesmo tempo, um, dois, três e quatro hoops. O público, rendido e catapultado para outra dimensão, vai exclamando uns ás e uns ós de cada vez que ele parece ir cair e vive o número até ao fim com um entusiasmo impressionante.

Ou seja, a primeira parte do espectáculo não era o espectáculo em si, mas um exercício de abaixamento das expectativas do público - porque era aborrecido, porque ele se enganava - para que o impacto da verdadeira proeza acrobática - estar em pé em cima de um poste de 7 metros a fazer girar hula-hoops - se torne esmagador.

É uma estratégia antiga, mas eu não me lembro de a ver tão bem executada.