Falsos amigos

Sempre que não sei dizer uma palavra em castelhano recorro à melhor ferramenta que existe entre falantes de diferentes línguas românicas: dizer a palavra que se sabe com as devidas modificações e o sotaque necessário para que se transforme na possível palavra estrangeira. É uma táctica que dá tantos melhores resultados quanto mais línguas românicas domine o interlocutor.

Com o castelhano a sua utilização torna-se irresistível porque a quantidade de vezes que resulta é surpreendentemente reconfortante. Passei os primeiros dois meses em Barcelona a falar português com sotaque castelhano - abrir as vogais, meter is por todo o lado, sibilar os esses, aspirar os jotas e dizer o resto das consoantes como se tivéssemos a boca cheia de tortilha - e sobrevivi lindamente.

Os problemas surgem quando se passa do vocabulário de sobrevivência para a necessidade de produzir um discurso mais preciso. Há demasiadas palavras em castelhano iguais às portuguesas que têm um sentido ligeira ou completamente diferente, o que faz com que por vezes, de forma inadvertida, se acerte ao lado… ou muito lado… ou insultuosamente ao lado.

Experimentamos uma palavra portuguesa em versão acastelhanizada, o nosso interlocutor faz sinal que percebeu, ficamos cheios de ai-que-bem-que-eu-já-falo e descobrimos mais tarde que afinal estávamos a tentar pedir uma anca (cadera) para nos sentarmos, a prever que o projecto demoraria cerca de um anûs (ano) a construir e a achar de muito bom gosto (exquisito) o processo de distruibuição de bilhas de gás na cidade de Barcelona.

Os falsos amigos são as minas anti-pessoais da semântica. Felizmente descobri, em boa hora, que há trilhos assinalados.