O Arquitecto e o Sultão

Em meados do Séc. XVIII, um náufrago deu à costa da ilha de Java.

Exausto e doente, falava uma língua esquisita. A população que o acolheu tratou-o e alimentou-o sem nunca entender uma palavra do que dizia. No entanto desenhava muito. Desenhos de pessoas diferentes, paisagens nunca vistas e construções esquisitas.

Restabelecido, a população decidiu levá-lo ao Sultão. Homem culto, rodeado por sábios capazes de comunicar em línguas de países distantes, talvez pudesse entender as palavras do náufrago.

O Sultão não conhecia a língua, mas um dos sábios percebeu donde vinha o náufrago. Capaz de se fazer entender, explicou ao Sultão o seu infortúnio, como era a terra de onde vinha e o que fazia: era arquitecto; e em jeito de gratidão pelo povo que o acolheu ofereceu os seus préstimos ao Sultão.

Veio mesmo a calhar. Há muito que o monarca pretendia construir um complexo balnear, com piscinas onde a família real se pudesse tranquilamente banhar, devidamente protegida dos olhares alheios. Um palácio semi-aquático protector da privacidade dos momentos de lazer da família real.

Feita a encomenda o Arquitecto iniciou os trabalhos. Nos desenhos que produzia procurava adicionar ao que conhecia as novas formas que este povo lhe apresentava nas suas casas, templos e palácios. Aprendeu novos materiais, outras técnicas de construir, outras formas de resolver os mesmos problemas. Terminou os desenhos, acompanhou as obras e assistiu, emocionado, ao enchimento dos tanques. O confronto com a obra acabada fazia-o sentir-se capaz de construir um mundo inteiro a partir daquelas piscinas.

O Sultão ficou radiante com a obra. Tudo pensado ao pormenor: a varanda para assistir aos bailados em noites de lua cheia, a janela donde, atirando flores, escolheria a mulher que teria direito a nadar com ele em privado, os muros altos, a proporção das piscinas, os vestiários e sala para sauna. Tudo estava no sítio certo. Uma obra grandiosa como ele e o seu reinado.

O Arquitecto esperava, por isso, uma generosa recompensa: ouro, terras, mulheres bonitas; luxos e boa vida.

O Sultão, temendo a revelação dos segredos do seu novo palácio e exposição da sua intimidade, mandou executá-lo.

A partir de versões contraditórias da história do arquitecto português que na segunda metade do Séc. XVIII construiu o Taman Sari em Yogyakarta na Indonésia. Parte do complexo foi recuperada recentemente num projecto do Arq. João Campos, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.