O logradouro

O filme começa com uma janela. Durante os primeiros minutos vemos várias janelas em momentos diferentes do dia e da noite. Durante os mesmos primeiros minutos os planos sobre as janelas, tomado sempre a partir do mesmo ponto, vão se afastando para revelar que estamos num logradouro, a observar as janelas dos prédios que o compõem.

Identificado o logradouro, começamos a ver pessoas dentro das suas casas a viver a sua vida. Observamo-las através das janelas, em função daquilo que os dispositivos de controlo de privacidade permitem - persianas, cortinas, vidro fosco - ou nos momentos em que aceitam expor-se - vir à varanda, estar à janela, abrir as cortinas. As pessoas também ocupam alguns dos espaços do logradouro e isso mesmo vamos também observando em planos intercalados com os das janelas.

A pouco e pouco o universo de pessoas e espaços observados vai-se limitando e, por fim, estamos a acompanhar apenas três ou quatro espaços - pessoas. Por esta altura somos todos voyeurs e o realizador um provável sociopata. Dá-se então o salto.

Saímos do logradouro e estamos na rua. Tocamos a campaínhas, entramos em prédios, subimos escadas e alguém nos abre a porta. Entramos. Percebemos que estamos em casa das pessoas que observávamos através das janelas ou dos pátios.

Falamos com elas. Contam-nos a sua história: a que as levou a este logradouro. Falam-nos também sobre as cortinas e as persianas e as janelas e as varandas e os pátios. Contam-nos que se sentem observadas na marquise e que por isso correm sempre as persianas; que gostam de ver os vizinhos e que por isso não têm cortinas; que gostam de fumar à janela a ver os gatos lá em baixo. Falam-nos de vergonha, de privacidade, de intimidade, de exibição, mas também de roupa a secar, de molas caídas, de gatos perdidos, de periquitos estridentes.

No fim vemos o logradouro, desta vez tomado de um conjunto de pontos diferentes, pela primeira vez configurado como um todo.