Privação

Há muita coisa que faz falta quando se desloca o quotidiano de uma cidade europeia para a capital de um dos países mais pobres do mundo.

O cinema, os concertos, a boémia nocturna, os quiosques inchados de jornais e revistas, as pastelarias com ovos moles e pão-de-ló, as livrarias e lojas de discos… toda a gente tem a sua lista que despeja prontamente sempre que a conversa se torna saudosa.

A minha começou por ser extensíssima. Dias e dias a enumerar todas as coisas que constituiam o meu quotidiano e que deixaram de o fazer. O pátio atrás de minha casa, as noites de Inverno, o Mooch, o cheiro a refogado, as exposições no CAM, o cheiro a mijo de cão no elevador, andar de metro, demorar horas a atravessar a cidade no 42, sentar-me por baixo da ponte a olhar para o Tejo, passear a pé que nem um estúpido, comer bifanas numa roulotte… Não escapava nada.

Depois comecei a relativizar as coisas. “De facto, não haver aqui um cinema é triste, mas lá também nunca vi um peixe-palhaço no mar”. Há medida que um novo quotidiano se foi definindo, a lista foi diminuindo sem eu dar inteiramente por isso. É certo que, por vezes, me continuo a sentir amputado de tudo aquilo, mas é cada vez menos frequente.

Agora o que não me entra da cabeça, mesmo depois deste tempo todo e de já me terem demonstrado tecnicamente por diversas ocasiões porque é que tal acontece, é o facto não se arranjar em lado nenhum um pires de tremoços.