Que bom que é

Vivo c’uma faca espetada nas costas, ai! que bom que é que bom que é que bom que é Sentado à espera de D. Sebastião a cadeira nem é minha, é do papão que bom que ele é que bom que ele é - Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pr’outra vez

Vivo com a fome entalada na garganta que bom que é que bom que é que bom que é Sentado à espera que o céu me dê pão a cadeira, emprestou-ma o sacristão que bom que ele é que bom que ele é - Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pr’outra vez

Vivo com a guerra a bater à minha porta que bom que é que bom que é que bom que é Sentado à espera do obus dum canhão a cadeira, emprestou-ma o capitão que bom que ele é que bom que ele é - Um, dois, um-dois-três, paciência, fica pr’outra vez

Vivo a trabalhar nove dias por semana que bom que é que bom que é que bom que é Sentado à espera da revolução a cadeira, emprestou-ma o meu patrão que bom que ele é que bom que ele é - Um, dois, um-dois-três de Oliveira, quatro

Vivo c’uma faca enterrada nas costas, ai! que bom que é que bom que é que bom que é Sentado à espera de D. Sebastião a cadeira nem é minha, é do papão que bom que ele é que bom que ele é - Um, dois, um-dois-três, esta agora vai de, um, dois, um-dois-três, esta agora vai de vez, ai!

Sérgio Godinho, “Os Sobreviventes”, 1971