500 e poucas polaroids antes…

(…) Interessa-me explorar algumas coisas com esta ideia.

Em primeiro lugar, o momento da escolha. Como só posso tirar uma foto por dia, o momento em que decido registar só pode acontecer uma vez - apenas uma coisa para fotografar ao longo do dia. Isto significa que se tiro uma ao acordar posso deixar a máquina em casa e que, da mesma forma, corro o risco de chegar ao fim do dia sem ter feito escolha nenhuma. Esta escolha vai ser mais motivada por um impulso, imagino, do que propriamente por deleite estético. Faz parte das regras que não posso alterar o meu dia-a-dia por causa das polaroids, ou seja, ir a um sítio tirar uma fotografia não vale.

Em segundo lugar, a instantaneidade do suporte e a possibilidade de confrontar a coisa com o registo da coisa. Diverte-me a perspectiva de olhar para uma laranja e ter na mão a fotografia da mesma laranja.

Por fim estou muito curioso em observar o conjunto de fotografias a crescer. Talvez este registo quotidiano possa constituir, passado algum tempo, um universo per si, com qualidades próprias. Ou talvez possa ser um álbum ranhoso de imagens desfocadas e desinteressantes. Não sei o que esperar.

Depois quero marcar em cada fotografia a data. Para isso estou a pensar comprar um carimbo datador. Em termos de processo o carimbo ajuda a uniformizar o registo, mas o que me fascina é o carácter de fecho… Não é bem isto… Explicando melhor, o acto de carimbar encerra um assunto, tem esse carácter de fechar qualquer coisa, de término, e isto parece-me o ideal como remate do processo.

Há um primeiro momento de identificação da situação, hesito, depois agarro na máquina, hesito outro vez, aponto, hesito e ainda posso desistir, disparo e já não desisto, espero que ela revele, tiro o carimbo, ajusto a data, passo-o na almofada e imprimo a data na fotografia. E é por isto, pensando nesta sequência que o carimbo me parece fazer mais sentido do que escrever com uma caneta, por exemplo. (…)